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Por muito tempo, muita gente repetiu a mesma ideia: “alambique é mundo de homem”.
Só que a realidade, a real, sempre foi mais ampla. E hoje ela está impossível de ignorar.
As mulheres na produção de Cachaça não são coadjuvantes. Elas estão na linha de frente: decidindo padrão sensorial, conduzindo processos, liderando estratégia, garantindo consistência, formando equipes, abrindo mercado e elevando o nível do que chega à sua mesa.
E este texto é um tributo. Vamos citar apenas algumas, mas com um objetivo claro: que todas as mulheres que trabalham na cadeia da Cachaça, do canavial ao engarrafamento, do laboratório ao atendimento, da exportação ao bar, se sintam homenageadas através delas.
Mulheres na produção de Cachaça: por que isso importa
A Cachaça é agricultura, técnica, paciência e cultura. E cultura de verdade nunca é de um grupo só.
Historicamente, as mulheres sempre estiveram presentes no universo dos alambiques, inclusive assumindo responsabilidades na operação em diferentes períodos da história do Brasil. Hoje, essa presença ganha uma camada nova: liderança visível, protagonismo e reconhecimento.
E o movimento não acontece no vácuo: ele conversa com uma transformação maior no campo e na economia rural.
Segundo dados citados a partir do IBGE, mulheres respondem por 42,4% da renda familiar no campo (e 51% no Nordeste).
O Censo Agropecuário (2017) aponta cerca de 947 mil mulheres no comando de propriedades rurais no Brasil.
Traduzindo: quando a gente fala de mulheres na Cachaça, a gente está falando de gestão, renda, autonomia e excelência, com impacto real.
Mulheres na produção de Cachaça e a força das redes
Uma coisa muda o jogo: quando mulheres se conectam, o mercado inteiro aprende.
Existem iniciativas e comunidades que ajudam a dar visibilidade, formar novas lideranças e fortalecer a cultura de apreciação responsável. Um exemplo é a ConVida – Confraria Mulheres da Cachaça, que reúne mulheres do setor e divulga esse movimento.

Até políticas públicas já olharam para isso: Minas Gerais lançou o selo “Feito Por Mulheres de Minas”, com o objetivo de diferenciar e ampliar a inserção de produtoras na cadeia de valor, incluindo Cachaças Artesanais feitas por mulheres.
Seis histórias para representar muitas
A seguir, algumas mulheres que a gente admira e faz questão de colocar sob os holofotes, não como “exceção”, mas como símbolo de um movimento inteiro.
Elk Barreto — Cachaça Sanhaçu

Elk é sócia e responsável pela direção de marketing e vendas da Cachaça Orgânica Sanhaçu. E não para por aí: ela também é Mestre Alambiqueira e Sommelier de Cachaça, atuando como divulgadora da cultura e do consumo consciente.
É o tipo de liderança que une técnica e visão de mercado sem perder o compromisso com a origem.
Rosana Romano e Manu Romano — Bem Me Quer

Em Pitangui (MG), a Bem Me Quer virou referência também por um motivo poderoso: mulheres fazendo acontecer. Há relatos de que Manu Romano recrutou e formou um time feminino para a produção,e Rosana Romano é citada como fundadora da ConVida, reforçando o elo entre produção e comunidade.
É uma história sobre método, formação e coragem para colocar gente no centro do processo.
Fabiani Hansen — Harmonie Schnaps

A Harmonie Schnaps, do Rio Grande do Sul, traz uma proposta artesanal e uma marca construída com identidade própria. O que a gente celebra aqui é o que muitas vezes não aparece no rótulo: mulheres ocupando espaço em negócios de destilados, ajudando a profissionalizar, posicionar e sustentar a qualidade ao longo do tempo.
Amanda Vercesi — Cachaça Urucuiana

Amanda se apresenta como produtora da Urucuiana e aparece associada à liderança do projeto e da destilaria em diferentes canais.
É o retrato de uma geração que combina gestão, técnica, presença e construção de marca, com consistência.
Kátia Espírito Santo — Cachaça da Quinta

Kátia Espírito Santo é um exemplo de liderança que mistura tradição com padrão alto, sem perder a raiz. À frente da Cachaça da Quinta, de Carmo (RJ), ela conduz um legado familiar e colocou a marca num patamar de respeito nacional.
E não é força de expressão: no V Ranking da Cúpula da Cachaça (2022), a Da Quinta Prata alcançou a maior pontuação entre as 50 finalistas e levou o título de “Cachaça do Ano”.
Cris Amin — Cachaça Tiê

Cris Amin é uma das responsáveis por transformar a Tiê, de Aiuruoca (MG), em uma marca premiada e reconhecida. Ela atua à frente de marketing e vendas, ajudando a levar a Tiê para o Brasil sem perder o que importa: identidade, cuidado e consistência.
Quem vê a garrafa pronta, às vezes não imagina o que existe por trás:
o ponto de fermentação, o corte do coração, o descanso, a madeira, o controle de lote, a repetibilidade, o padrão sensorial, a decisão de não “atalhar”.
E é por isso que falar de mulheres na produção de Cachaça não é “tema de data comemorativa”. É falar de qualidade. De exigência. De futuro.
Como homenagear essas mulheres o ano inteiro?
Se a gente quer que esse movimento continue crescendo, o caminho é simples (e prático):
Reconheça o trabalho: cite produtoras, compartilhe histórias, dê crédito.
Visite alambiques e experiências guiadas (quando possível): conhecimento cria respeito.
Valorize a cultura e o consumo consciente: a Cachaça melhora quando o público melhora junto.
Apoie iniciativas e redes que fortalecem mulheres no setor.
Um brinde (consciente) a elas
Hoje, a nossa homenagem vai para a Elk, para a Rosana, para a Manu, para a Fabiani, para a Amanda, e para todas as mulheres que sustentam esse universo com trabalho sério.
Porque no fim, o Brasil sente no copo aquilo que alguém decidiu fazer com rigor.
E cada vez mais, essa decisão tem nome, voz e liderança feminina.
Feliz Dia das Mulheres.